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Janela Leste da Catedral de Carlisle é Eleita Favorita Nacional

 (Photo: Association of English Cathedrals)

A Catedral de Carlisle, um ícone da arquitetura gótica inglesa, conquistou um prestigiado reconhecimento ao ter sua monumental Janela Leste Curvilínea escolhida como 'A Janela de Vitral Favorita da Nação'. A distinção, concedida pela Associação das Catedrais Inglesas, celebra uma obra que transcende os séculos, testemunhando eventos históricos cruciais e consolidando-se como uma peça central da arte sacra britânica.

Datada predominantemente dos séculos XIII e XIV, com intervenções restauradoras significativas no século XIX, a janela ilustra uma rica tapeçaria de narrativas religiosas. Suas seções originais focam na representação do Juízo Final, enquanto as adições posteriores integram passagens da vida de Jesus, unindo distintas eras artísticas em uma composição harmoniosa e profundamente simbólica.

Uma História de Resiliência: Conflitos e Peste

A construção dessa grandiosa peça teve seu início em 1292, inserida em um ambicioso projeto de reconstrução após um incêndio devastador. Contudo, o progresso foi intermitente e árduo, marcado por uma série de adversidades que testaram a capacidade de resiliência da região e dos artesãos envolvidos. A proximidade de Carlisle com a fronteira escocesa a tornava um palco frequente para conflitos.

Incursões e ataques recorrentes das forças escocesas, lideradas por figuras históricas como Edward Bruce, irmão do rei Robert the Bruce, desestabilizaram economicamente a área. Após a vitória escocesa na Batalha de Bannockburn em 1314, Edward Bruce ocupou os arredores de Carlisle, e no ano seguinte, o próprio Robert the Bruce impôs um cerco à cidade, pilhando recursos e atrasando ainda mais os trabalhos da catedral.

Em 1349, uma calamidade ainda maior se abateu sobre a Europa e, consequentemente, sobre Carlisle: a Peste Negra. Esta pandemia, que dizimou aproximadamente um terço da população continental, ceifou a vida de cerca de um terço dos habitantes da cidade, agravando as dificuldades e paralisando quase completamente qualquer avanço nos projetos da catedral.

Somente após a superação dessas provações, foi possível retomar com vigor a produção dos vitrais. Um momento crucial ocorreu em 1359, quando John de Salkeld, um proeminente proprietário local, realizou uma doação de 40 xelins especificamente para a 'confecção de uma nova janela no coro'. A seção superior, que retrata o Juízo Final, é atribuída ao mestre Ivo de Raughton e data desse período de renovado impulso.

Restaurações e o Legado Artístico no Século XIX

As seções inferiores originais da janela foram perdidas em algum momento antes de meados do século XVIII. No século XIX, a renomada empresa Hardman & Co., de Birmingham, foi encarregada de recriar essas partes em uma homenagem póstuma a Hugh Percy, então Bispo de Carlisle. Essa intervenção moderna é responsável pela incorporação das cenas da vida de Jesus, garantindo a continuidade da narrativa visual e a preservação da janela como um todo.

A Essência do Vitral Gótico: Luz e Espiritualidade

A arte do vitral, com sua capacidade de filtrar e colorir a luz, desempenhou um papel transcendental na arquitetura medieval, especialmente no auge do estilo gótico. Mais do que meros elementos decorativos, os vitrais eram concebidos como veículos para narrativas sagradas e símbolos da presença divina. Os exemplos mais antigos de vitrais na Grã-Bretanha, datados de meados do século XII, surgiram após o assassinato de Thomas Becket, arcebispo de Canterbury, demonstrando a profunda interconexão entre fé, arte e eventos históricos marcantes.

A visão teológica e estética do Abade Suger, falecido em 1151, foi determinante para o desenvolvimento dessa forma de arte. Suger defendia a ideia de que a luz que atravessava os vitrais de uma igreja se transmutava em luz divina, simbolizando a presença de Deus na Terra. Essa filosofia foi aplicada no redesenho da Basílica de Saint-Denis, na França, que ele concebeu como um 'templo de luz', marcando a transição da arquitetura românica para a gótica, onde os vitrais se tornariam elementos definidores da grandiosidade e espiritualidade dos novos edifícios.

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