A Reverenda Dame Sarah Mullally foi oficialmente confirmada como a 106ª Arcebispa de Canterbury em uma solene cerimônia realizada na Catedral de São Paulo, em Londres. Sua entronização encerra um período de mais de um ano de vacância na chefia espiritual da Igreja Anglicana, colocando-a na vanguarda da liderança de milhões de fiéis em 165 países e em um cenário global complexo de desafios.
Durante a celebração, a Arcebispa Mullally recebeu a Cruz Primacial, um emblema que simboliza a autoridade do Primaz e a figura de Cristo. Ao término do culto, ela concedeu a bênção aos presentes. A liturgia foi enriquecida por uma diversidade musical, combinando composições clássicas de Elgar com cantos tradicionais sul-africanos. As leituras bíblicas foram proferidas em inglês e português, um reconhecimento dos históricos vínculos da Diocese de Londres, onde Mullally anteriormente serviu como Bispa, com as províncias anglicanas de Moçambique e Angola.
Em declarações pré-cerimônia, a nova Arcebispa expressou um profundo sentimento de privilégio e humildade perante a assunção do cargo. Ela enfatizou o papel das igrejas anglicanas em oferecer "cura e esperança" às suas comunidades mundiais. Mullally prometeu guiar o "rebanho de Cristo com calma, consistência e compaixão", especialmente em "tempos de divisão e incerteza". Sua visão inclui um ministério de hospitalidade e inclusão, assegurando que as vozes dos marginalizados e das vítimas de abusos e escândalos passados da Igreja sejam ouvidas. Ela busca equipar a Igreja para ser um "lugar gentil e seguro" que proteja os vulneráveis e promova justiça, equidade, paz e cuidado com a criação.
O Contexto da Vacância e o Legado do Cargo
A confirmação de Mullally preenche um hiato na titularidade do arcebispado que perdurava por mais de um ano. Seu predecessor, Justin Welby, renunciou após a divulgação de um relatório crítico sobre sua gestão de denúncias de abuso infantil relacionadas ao falecido John Smyth. A vacância do posto de Arcebispo de Canterbury, líder espiritual de mais de 85 milhões de anglicanos em 165 nações, é um evento raro e de grande ressonância para a Comunhão Anglicana global, uma das maiores denominações cristãs do mundo.
Desafios e Controvérsias para a Nova Liderança
A nomeação de Mullally não transcorreu sem controvérsias, gerando críticas significativas mesmo antes de sua posse. Embora a Arcebispa defenda posições cristãs tradicionais em temas como o suicídio assistido, setores tradicionalistas da Igreja manifestaram preocupação com sua postura mais liberal em relação à sexualidade humana. A questão da episcopia feminina – a ordenação de mulheres como bispas – também permanece como um ponto de discórdia para muitos grupos internos da denominação.
A insatisfação de correntes conservadoras foi articulada pelo Gafcon, uma coalizão global de anglicanos que chegou a declarar que não reconheceria a autoridade da nova Arcebispa de Canterbury, autodenominando-se a "verdadeira Comunhão Anglicana" e evidenciando as profundas fissuras teológicas dentro da denominação. Mais recentemente, Mullally enfrentou escrutínio público sobre seu histórico de "salvaguarda" (medidas de proteção contra abusos) durante seu período como Bispa de Londres. Em entrevista à BBC, ela defendeu a transparência de suas ações, afirmando: "Todos nós devemos estar abertos a ter a luz lançada sobre o que fazemos, e reconheço que, com razão, há um escrutínio maior sobre mim e as ações que empreendi". Ela reiterou seu compromisso com a salvaguarda e a garantia de independência nos processos de apuração, pilares cruciais para a Igreja moderna em sua busca por restaurar a confiança dos fiéis.