A Igreja da Inglaterra reafirmou seu compromisso de alocar 100 milhões de libras esterlinas para um fundo permanente dedicado a iniciativas de reparação relacionadas à sua histórica ligação com a escravidão transatlântica. A decisão, comunicada pela futura Arcebispa de Canterbury, Dame Sarah Mullally, e pelos Comissários da Igreja, persiste apesar de intensas críticas de legisladores conservadores, que questionaram a prioridade e a legalidade do uso desses recursos, sugerindo que deveriam ser direcionados para as necessidades urgentes das paróquias locais.
O Cerne da Controvérsia
No final do ano anterior, a iniciativa se tornou alvo de um grupo de parlamentares do Partido Conservador. Em uma carta aberta, articulada pela deputada Katie Lam, os críticos argumentaram que a medida poderia violar as diretrizes da Charity Commission, o órgão regulador independente para instituições de caridade no Reino Unido. As diretrizes estipulam que os fundos caritativos devem ser empregados para os propósitos originais de sua doação. Os parlamentares enfatizaram que, com inúmeras igrejas enfrentando desafios financeiros e estruturas em deterioração, o desvio de uma quantia tão expressiva para um projeto percebido como alheio às obrigações primárias da Igreja seria inaceitável.
A Justificativa da Igreja da Inglaterra
Em resposta às críticas, Dame Sarah Mullally, que em breve assumirá a posição de líder espiritual da Igreja da Inglaterra, declarou que “os laços históricos da Igreja com a escravidão transatlântica de seres humanos representam uma questão de grave seriedade”. Ela ressaltou que a atuação dos Comissários da Igreja — o órgão responsável pela gestão do vasto patrimônio financeiro da instituição — está "ancorada no apelo cristão ao arrependimento, à reconciliação e, sobretudo, à esperança”. Mullally também refutou a alegação de que o plano de reparação comprometeria o apoio ao ministério paroquial, destacando um aumento recorde nos recursos destinados às paróquias, totalizando 1,6 bilhão de libras esterlinas alocadas para os próximos três anos.
Os Comissários da Igreja corroboraram o posicionamento de Mullally em sua própria defesa. Eles asseguraram que sua estratégia de investimento tem, na verdade, expandido os fundos disponíveis para a missão e o ministério da Igreja. O compromisso de 100 milhões de libras para um novo fundo perpétuo, argumentaram, alinha-se à "Quarta Marca de Missão" da Igreja da Inglaterra, um dos cinco pilares da comunhão anglicana global, que visa "transformar estruturas sociais injustas, desafiar a violência de todas as formas e buscar a paz e a reconciliação".
Reação Contínua da Oposição
Apesar das extensas justificativas apresentadas, Katie Lam expressou no X (anteriormente Twitter) sua "decepção" com a resposta da Igreja. A deputada reiterou sua convicção de que os 100 milhões de libras deveriam ser integralmente destinados às paróquias locais, classificando o projeto de reparação como um "projeto de vaidade divisivo" e mantendo sua postura crítica em relação à destinação dos fundos.